Nervosismo na final? "Mente quem diz não sentir nada", diz técnico do Colón

Pablo Lavallén conta como trabalha o elenco para a decisão contra o Independiente Del Valle e explica idolatria por La Volpe, Passarella e Sabella

Aos 47 anos, Pablo Lavallén sabe que está prestes a se tornar um herói para o Colón, mas carrega as palavras como se nada acontecesse. Será a primeira final como treinador, embora o currículo carregue uma Libertadores e uma Supercopa pelo River Plate, como jogador. A decisão da CONMEBOL Sul-Americana, contra o Independiente Del Valle, neste sábado (9), o coloca na vitrine mundial. Exibe o método de trabalho: o valor da verdade, dizer as coisas na cara em tempos de redes sociais, aprender a experiência das situações de limite. 

Os modelos de trabalho se baseiam em treinadores com quem trabalhou: Ricardo La Volpe pelo estilo de jogo, Daniel Passarella pela personalidade e Alejandro Sabella pela capacidade na hora de se expressar. É sobre isso que ele fala, às vésperas do momento de ápice da carreira.

Como faz para convencer os jogadores a aceitarem a sua ideia?

Nós, treinadores, temos muitas ideias na cabeça. Temos de ser capazes de exibi-las e explicar ao jogador que essa é a melhor forma de vencer uma partida. Isso é vivenciado por meio do treinamento, do ensaio, do erro. As ferramentas que você dá têm de dar resultado em algum momento. Quando o jogador se convence de que aquela é a melhor maneira de vencer um jogo, aí começa a funcionar.

Qual valor você dá à palavra?

O máximo. A palavra é muito importante porque o jogador precisa estar conectado com o treinador, com o preparador físico, com o assistente de campo e com o analista de vídeo. Precisa ver um diálogo, uma proximidade, uma relação de trabalho que seja boa. Se não houver entendimento, é muito difícil alcançar um grupo coeso e dar frutos.

Quais ferramentas usa para que haja um bom ambiente no elenco?

Falar permanentemente com a verdade. Quem teve o privilégio de praticar esse esporte sabe que o jogador está sempre atento ao que lhe é dito. O treinador é o dono do seu silêncio e escraviza as suas palavras. Quando alguém lança uma palavra, lança uma promessa: "Olha, preciso de você porque amo você, porque vou usar você". É melhor mantê-lo, porque o jogador sempre se lembra do que você disse. Já aconteceu comigo muitas vezes, lá fora, para dizer a algum jogador, mesmo que brincando, observe isso, observe aquilo. Depois de três ou quatro meses, eles me lembram. A verdade com o jogador de futebol é fundamental, embora seja dolorido.

Pablo Lavallén Colón Copa Sudamericana

Como se adapta à linguagem do jogador?

É um processo de aprendizagem ao longo da vida. Assim como no futebol, meus treinadores levaram 20 ou 30 anos e tiveram de tentar adaptar hoje, a nossa reciclagem para a nova geração é mais vertiginosa. O jogador está conectado ao que é dito nas redes sociais. Ele tem mais contato com a imprensa. Muitas vezes estamos errados porque não sabemos como lidar com esse tipo de avanço cibernético e temos de sofrer. A comunicação é vital. Hoje a tecnologia nos mantém informados com o que acontece do outro lado do mundo, mas às vezes mantém você desconectado do que tem a um metro de distância. Ouvir tudo e não ir diretamente à fonte pode ser prejudicial.

Qual a importância da palavra em um momento de tanta ansiedade como jogar uma final?

É uma situação única. Pela primeira vez em 114 anos, este clube jogará uma final. Com a possibilidade de ser campeão. Já jogar uma final não tem precedentes para o clube. Então, são novas sensações. Esta é a minha primeira final como treinador. Eu joguei finais como jogador. Não se pode acostumar a algo que é novo. As pessoas experimentam isso como algo novo, e tentamos ser o mais focados possível. Permanentemente, o problema aparece com os amigos em uma mesa de café, com o jornalismo ou com jogadores de futebol, e você precisa ter calma. Não jogue o jogo antes de o árbitro apitar.

Dos treinadores que teve, quais serviram como modelos?

Três me marcaram. O que mais me marcou no aspecto futebolístico foi o Ricardo La Volpe, no México. Acho que, depois de tudo o que aprendi com ele, foi quando decidi me interessar em ser técnico. Depois, com Daniel Passarella, aprendi essa faceta da liderança, para mostrar uma personalidade e uma presença como treinador. E eu tinha Alejandro Sabella. Com Alejandro, embora eu tenha compartilhado pouco tempo na Reserva do Rio, vi o dom de conversar com você, de convencê-lo, desse vínculo com o jogador quase paterno.

Por que La Volpe no aspecto futebolístico?

Ele me ensinou coisas que não aprendi com outro treinador. Ele tem uma visão muito particular do futebol. Muito ofensivo. Esse esporte é criado para vencer, impor-se ao rival e superá-lo. Ricardo, nesse sentido, tem coisas muito claras. Como um time precisa jogar para tentar vencer uma partida. Este jogo foi criado para impor, vencer, ter a bola, saber usá-la melhor que o seu rival. Nisso, ele tinha mais do que outro treinador, gostei muito e peguei muitos dos conceitos.

Como foi para você, como jogador, disputar finais?

Joguel clássicos com o River e finais da Copa Libertadores de 96, e são momentos únicos. Tive outra chance, em 91, de uma Supercopa contra o Cruzeiro. São situações em que não se sabe que, talvez, não se repitam na vida do jogador de futebol. Você vive com intensidade e nervosismo. Tente ser o seu melhor, mas quem lhe disser que ele não sente nada mente para você. O que precede é desgaste mental.

Como foram os dois intervalos contra o Atlético Mineiro para que conseguissem o resultado positivo?

Acho que faz parte do que estávamos falando. O fato de não ter passado por essas situações o deixa contente ou de mãos atadas. Simplesmente, nesses momentos, falamos sobre deixar ir, arriscar. Seja protagonista. Tente impor o futebol que esses meninos têm. Aconteceu de tal maneira que uma mudança mais que importante foi vista no primeiro jogo em Santa Fé e após o segundo gol de Mineiro no Brasil, o time assumiu o comando. É uma adaptação para jogar coisas importantes. Perceba que eles podem ganhar uma final e que são dignos de ganhar uma final porque ninguém lhe dá nada. Se Independiente Del Valle e Colón chegaram, é porque de uma maneira ou outra eles eram melhores que seus rivais.

Qual é o seu refúgio em busca de tranquilidade?

Sou um homem de fé, com fortes crenças. Isso me dá paz de espírito. Acreditar que alguém tem o poder de mudar situações quando, de fato, não as possui, pode gerar um sentimento de fraqueza ou desamparo. E eu não sinto isso. Sei que, em algum momento, perco o controle, e os jogadores o têm. A procissão vai para dentro. Quem vê de fora ou o jogador que me vê de fora precisa saber que o treinador está calmo. Ele está pensando no que a equipe tem de fazer, e eu descanso nisso.

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