Gustagol: o homem que aprendeu a voar e voou na Copa Sul-Americana

Centroavante criou asas e superou a desconfiança para dar a volta por cima no Corinthians e se tornar a principal esperança de gols contra o Racing (ARG) na Argentina

Por Marcio Porto

Desde cedo, Gustavo Henrique da Silva Sousa aprendeu que precisaria criar asas para conseguir realizar seus sonhos. Com os pés no chão, sua realidade era como a da maioria dos jovens de classe baixa de Registro, município com um dos maiores índices de violência do Estado de São Paulo. Passados 24 anos, Gustavo se divide entre os voos para subir na vida e os pés no chão para não perder o foco de onde pretende chegar. 

Pelo alto, o atacante de 1,86m colocou o Corinthians na disputa do confronto com o Racing (ARG) pela Fase 1 da Copa CONMEBOL Sul-Americana. Foi com a impulsão dele que o Timão empatou o duelo de ida por 1 a 1 na Arena e nesta quarta-feira, em Buenos Aires, joga por um triunfo para seguir na competição sul-americana. 

O salto, a parada no ar, a cabeçada: no gol contra o Racing, o centroavante colocou em prática tudo aquilo que aprendeu desde os campos de várzea, quando as assistências não vinham de Sornoza, Pedrinho ou atletas como ele, mas de alguém mais próximo. "Desde pequeno, sempre gostei de jogar bola, brincava bastante nas ruas. Meu pai me levava na beira de campo para ver ele jogar. Tanto que com 14, 15 anos estava jogando no amador, com pessoal mais velho. Sempre fui alto, comecei pequeno para jogar, ele me colocava para jogar uns cinco, dez minutos no meio dos grandes. Eu com 14, eles com mais de 20. Eu lembro que fiz o primeiro gol com um cruzamento do meu pai, foi de cabeça", relembra o goleador do Corinthians na temporada 2019.

O primeiro gol foi também o responsável pela primeira grande emoção do jovem no futebol. A assistência do pai, a alegria de fazer o que gosta, a realização por estar com a cabeça no lugar certo e não onde os amigos de infância estavam, em caminhos menos virtuosos. Ele começou a perceber que voar não era impossível. "Foi uma jogada pela linha de fundo, ele (o pai) cruzou, eu estava sozinho dentro da área, fiz de cabeça, e me emocionei muito, dentro do campo, dentro da área já comecei a chorar. Meus amigos me abraçaram, todo mundo", conta.

Depois dos primeiros passos em Registro, Gustavo foi bater asas em Sorocaba, cidade do interior de São Paulo. Primeiro foi o pai. Jogou profissionalmente pelo São Bento, mas precisou voltar para casa depois que a esposa perdeu o segundo filho. Mais tarde, a cidade também cruzaria o caminho de Gustavo. O Atlético o viu jogar e o chamou para um período de testes. No entanto, na época ele estava deslocado. Não estava na pista adequada para alçar voos. "No início, eu jogava na minha cidade e o professor sempre me colocava de segundo volante.. Mas na minha cabeça sempre quis ser atacante, jogar na frente. Como segundo volante, o Atlético ficou louco por mim, pediu para eu ir fazer um teste lá.Eles gostaram muito de mim, mas eu voltei para casa. E não voltei mais. Mas hoje tenho de agradecer a Deus, porque acho que eu estaria de segundo volante e nada disse estaria acontecendo". 

Como centroavante, Gustavo foi captado pelo Taboão da Serra-SP e no início de 2014 teve a grande chance da vida ao disputar a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Terminou como artilheiro e ganhou de presente um contrato com o Criciúma. Em Santa Catarina, virou Gustagol. Se ainda não tinha asas, Gustavo já tinha o seu ganha pão incorporado no nome. Estava cada vez mais difícil manter os pés no chão. 

Ainda mais quando chegou a chance de defender o Corinthians, clube do coração, em 2016. Como voar para fazer os gols que tanto sonhou e que lhe renderiam as chances e fama que acompanham o sucesso? Gustagol não saiu do chão. Em nove jogos, não fez gol. Para a torcida do Corinthians, virou mais um Gustavo qualquer. Não poderia acabar assim. 
Bahia, Goiás, Fortaleza. Gustagol precisou andar pelo Brasil para voltar a acreditar que poderia voar. A confiança aumentou quando ouviu do lendário ex-goleiro Rogério Ceni, seu treinador no clube cearense, que era o melhor cabeceador com quem ele já havia trabalhado. Resultado: o centroavante marcou 30 gols, foi o artilheiro do Brasil em 2018 e ganhou outra chance no Corinthians. 

O recomeço foi acima do esperado. Em 12 jogos em 2019, Gustagol marcou oito vezes. É com sombras o artilheiro do Corinthians e figura mais uma vez entre os principais do país. A fartura deu fama, empolgação e pedidos de desculpas dos corintianos. "Hoje não consigo sair de casa, fazer alguma coisa, nas minhas redes sociais mudaram muito, as críticas hoje são só elogios. Como eu falei, muitas pessoas que lá atrás me criticavam, me xingavam, queriam minha cabeça, me elogiam, pedem desculpas, estão felizes. Mas com tudo isso preciso manter os pés no chão, seguir com humildade e fazer o que venho fazendo", afirma Gustagol. 

O atacante volta a ficar dividido entre os voos e os pés no chão. Dos oito gols, cinco foram de cabeça, sua especialidade. Depois de marcar contra o Racing, foi elogiado até por José Mourinho, técnico português que comentou a partida pelo DAZN. Gustagol quer voar, mas sabe que tem de voltar ao chão. Para o torcedor corintiano, o ideal é que ele voe em Buenos Aires e coloque os pés no chão no Brasil, na quinta-feira. "A gente tem total condições de reverter o placar e sair com a vitória lá. Mas não pode ficar só falando. Tem de entrar no campo bem concentrado, e fazer o que a gente vem fazendo. Se a gente entrar concentrado, podemos, sim, sair classificados", destaca o jogador. 

Então, voa, Gustagol!

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